DIÁLOGOS DE JESUS CRISTO – Por Venerável Servo de Deus Enrique Shaw

Diálogo de Jesus com a mulher Samaritana 

Boletim da Associação de Homens da Ação Católica (AHAC)

*JESUS CRISTOAno XXII, novembro de 1954, Nº 259

A perfeição para os discípulos de Jesus consiste em imitar o seu Mestre (Lc. 6, 40; Jo. 13, 12-15; Jo. 14, 6).

Não nos repetem as Sagradas Escrituras que tudo, para nós, consiste em imitar a Cristo, revestir-nos de Cristo, viver não mais nossa própria vida, mas a de Cristo? (Gl. 2, 20; Fl. 1, 21).

O objetivo deste artigo, escrito sem qualquer pretensão de originalidade ou erudição e sem querer esgotar o assunto, é destacar plenamente e em todo o seu vigor, a pessoa e o caráter de Jesus, não para que copiemos escrupulosamente seus atos exteriores, mas para nos ajudar no esforço de reproduzir seus sentimentos, suas virtudes, seu amor pelo Pai e por todos nós.

Que a Virgem Santíssima, de quem Jesus recebe todas as características de sua natureza humana, abençoe estas descrições, para que contribuam para um melhor conhecimento e amor de seu Divino Filho, nosso Modelo: Jesus.

l. JESUS ATRAVÉS DE SEUS DIÁLOGOS

Quem de nós, por obrigação ou por prazer, não gasta muito – talvez até demais – tempo em conversas com o nosso próximo? Em reuniões familiares, no escritório, na fábrica ou em algum encontro casual em um café, frequentemente temos uma conversa. E conversar é uma forma de expressar nossa personalidade. Jesus também conversava com certa frequência. Para quê? Para que os homens O conhecessem. E embora não possamos sentir o calor vivo de Sua voz, os Evangelhos nos mostram a perfeição de Jesus, também neste aspecto de Sua Sagrada Humanidade. Mais de noventa conversas nos são apresentadas, e todas elas mostram os traços, naturais e geniais, do Artista Divino.

Diálogos com seus amigos

Na primeira Páscoa, Jesus cumprimentou Seus amigos: “A paz esteja convosco!” A paz esteja convosco! Paz e amor são a atmosfera própria da amizade. Quando falava de amigo para amigo, a conversa de Jesus transbordava de sentimentos de paz e amor. Os discípulos, a caminho de Emaús, perceberam isso muito bem. “Não ardia o nosso coração dentro de nós, enquanto Ele nos falava no caminho, quando nos abria as Escrituras?” (Lc. 24, 32).

Sem dúvida, a casinha de Nazaré foi testemunha das conversas mais sublimes entre Jesus, Maria e José. As conversas em Caná refletem o lar feliz da Sagrada Família. “Jesus também foi convidado para este casamento, assim como Seus discípulos” (Jo. 2, 2). Pode haver alguma dúvida de que nessa festa, que provavelmente, seguindo os costumes da época, durou vários dias, e cujo sucesso tanto contribuiu com a transformação oportuna da água em vinho, Sua conversa não teria sido adequada, repleta de calor humano?

E o que dizer do Sermão da Ceia, quando Ele abriu Seu Coração para Seus Apóstolos, chegando a chamá-los de “filhinhos”? Não é possível apreciá-lo em seu valor justo, nem mesmo compreendê-lo, se não se levar em conta a vivíssima emoção de Quem fala e de quem O escuta. Mais do que um sermão ou discurso, é uma conversa íntima ou colóquio, verdadeira demonstração de doce caridade que se transmite do Coração de Jesus, sempre ardente de amor, para o coração dos discípulos.

Em todas as conversas, Jesus imediatamente deixava Seus amigos à vontade. Mas, quando necessário, também os corrigia e repreendia por seus erros. Apenas um resistiu a essas chamadas de atenção: Judas.

Diálogos com seus inimigos

E ainda com ele, Jesus foi atencioso e conversou com muito tato. Mesmo quando Judas deixou o Cenáculo para consumar sua traição, as palavras que Jesus lhe disse, certamente, bem claras para o traidor, também foram para os outros discípulos. E quando, no Monte das Oliveiras, Judas se aproximou para dar-lhe o beijo que determinaria Sua prisão, Jesus respondeu com grande ternura: “Amigo meu, para que vieste?” (Mt. 26, 50). Ainda aos corações mais endurecidos, Jesus procurava abrandar com a conversa. Ele fazia bem àqueles que o odiavam e, em cada conversa, oferecia-lhes Seu amor. Mas o que eles queriam era Sua vida, não Seu amor.

Todos nós conhecemos bem a cena provocada pelos escribas e fariseus, quando apresentaram uma mulher adúltera a Jesus para provocar alguma frase que pudessem usar contra Ele. Certamente, entre os espectadores, houve um intenso silêncio quando perguntaram se, de acordo com a Lei, ela deveria ser apedrejada. E Ele desafiou: “Quem estiver sem pecado atire a primeira pedra”. Ninguém o fez, e quando Ele ficou sozinho com a mulher, perguntou: “Onde estão aqueles que te acusam? Ninguém te condenou?” “Ninguém, Senhor.” “Então, eu também não te condeno; vá e não peques mais”  (Jo. 8,1-11). Depois de afastar seus inimigos e a mulher, confusos, pronunciou essas palavras extraordinárias, cheias de um tato verdadeiramente divino, que não aprovam o pecado, nem condenam o pecador.

Foi num tom de igualdade e cordialidade que Jesus começou a conversa com uma samaritana que estava a tirar água do poço de Jacó. Para salvar a alma da mulher, Ele deixou de lado todas as tradições judaicas daquela época e, adaptando-se às circunstâncias, começou falando sobre a água, um tema tão familiar e próximo quanto o poço, para depois, desenvolvendo a conversa de forma adequada, declarar que Ele era o Messias tão esperado.

Diálogos com os aflitos

Uma e outra vez, corações ansiosos, na presença de Jesus, sentiram sua disposição ser transformada. Não é à toa que o Evangelho é uma palavra que em grego significa “boa nova”.

Diálogos sinceros e caridosos

Quando há sinceridade, a conversa nunca degenera em mera conversa fiada. E ainda menos quando há verdadeira caridade. Os sermões de Jesus não eram mais do que conversas espontâneas, simples, sinceras e diretas. Ele nunca falou com pedantismo e sempre de forma natural transmitiu sua mensagem de amor por Seu Pai e pelos seres humanos, falando em sua própria linguagem de tal maneira que até mesmo seus opositores tiveram que reconhecer que “nunca homem algum falou como Este”.

Jesus, bom ouvinte

Mas a conversação é recíproca; não pode ser mantida se não houver alguém que escute. Nosso Senhor também soube ouvir, com atenção e simpatia, as situações de alegria ou tristeza das pessoas que o cercavam. Quem sabe ouvir demonstra inteligência, pois reconhece que há um tempo para perguntas e um tempo para respostas. Lembremo-nos dele quando, sentado entre os doutores, estava “escutando-os e interrogando-os” (Lc. 2,46). Quem sabe ouvir também é paciente. Jesus demonstrou infinita paciência com os Apóstolos e com sua obstinada esperança na vitória terrena do Messias. E quem sabe ouvir suportará o tagarela mais chato, não pelo que ele diz, mas pelo estado de espírito manifestado em sua conversa.

Diálogos sobre o tempo

Pode uma conversa ser completa sem algum comentário sobre o tempo? Embora alguns homens grandes tenham olhado com desprezo essa inofensiva tradição, outros, como Chesterton, têm visto “motivos profundos e delicados” para falar sobre o tempo. Como a chuva ou o bom tempo afetam a todos, é um fator de igualdade, elemento que contribui para uma boa educação e, portanto, torna a conversa mais agradável. Embora as condições climáticas afetem o corpo, elas também introduzem um fator espiritual, pois inevitavelmente levam a reflexões sobre a irmandade de todos os homens, já que a chuva cai sobre todos… Em resumo: o simples comentário “Que belo dia!” contém todo um germe de camaradagem.

Jesus falou sobre o tempo como prova da irmandade dos homens, enfatizando enfaticamente a Paternidade de Deus: “Amai os vossos inimigos… para que vos torneis filhos do vosso Pai celestial, que faz nascer o seu sol sobre maus e bons, e vir chuvas sobre justos e injustos” (Mt. 5,44-45).

E sem dúvida, havia “motivos profundos e delicados” quando Ele falou sobre o tempo aos fariseus e saduceus: “Quando é à tarde, dizeis: Haverá bom tempo, porque o céu está rubro. E pela manhã: Hoje haverá tormenta, porque o céu está de um vermelho sombrio. Hipócritas! Sabeis distinguir o aspecto do céu e não podeis discernir os sinais dos tempos?” (Mt. 16,2-3). Em outra ocasião, Ele os fez notar como “todo aquele que ouve estas minhas palavras e as põe em prática será comparado a um homem prudente, que edificou a sua casa sobre a rocha. E desceu a chuva, e correram rios, e assopraram os ventos, e combateram aquela casa, e não caiu, porque estava edificada sobre a rocha” (Mt. 7,24-25).

E assim, com descrições vívidas de cenas familiares para seus ouvintes, Jesus encontrou um caminho para alcançar suas inteligências.

É a palavra falada de Jesus que continua a agir. “Não temos nenhuma prova”, escreve Chesterton, “de que Ele alguma vez tenha escrito uma palavra, exceto com Seu dedo na areia. Trata-se de uma contínua e sublime conversação.”

Conclusão

Sigamos o Seu exemplo, conversando com todos, sincera, simples, agradável e caritativamente, tendo também em mente as palavras do Espírito Santo através do Apóstolo Tiago (3,1-12): “Meus irmãos, não sejais muitos de vós mestres, sabendo que receberemos um juízo mais severo. Pois todos tropeçamos em muitas coisas. Se alguém não tropeça no falar, é um homem perfeito, capaz de refrear também todo o corpo. Ora, nós pomos freios nas bocas dos cavalos, para que nos obedeçam; assim também todo o corpo, sim, no leme, embora seja tão pequeno, e gira para onde quer o impulso do timoneiro. Assim também a língua é um pequeno membro, e gloria-se de grandes coisas. Vede quão grande bosque um pequeno fogo incendeia. A língua também é um fogo; sim, a língua, qual mundo de iniquidade, colocada entre os nossos membros, contamina todo o corpo, e inflama o curso da natureza, sendo por sua vez inflamada pelo inferno. Pois toda espécie tanto de feras, como de aves, tanto de répteis como de seres marinhos, se doma e tem sido domada pelo gênero humano; mas a língua, nenhum homem a pode domar. É um mal irrefreável; está cheia de veneno mortal. Com ela bendizemos a Deus e Pai; também com ela amaldiçoamos os homens, feitos à semelhança de Deus. De uma mesma boca procede bênção e maldição. Meus irmãos, não convém que estas coisas sejam assim. Porventura lança uma fonte de um mesmo manancial água doce e água amargosa? Pode acaso, irmãos meus, pode a figueira produzir azeitonas, ou a videira figos? Assim tampouco pode uma fonte dar água salgada e doce.”

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